Bike no Tatuapé: estamos preparados para as bicicletas?

Em algumas regiões da cidade já é comum ver as bicicletas circulando ao longo do dia. No Tatuapé, essa realidade ainda parece distante. Será que estamos falando de moda para apenas uma região da cidade?

O uso de bicicleta como meio de transporte tem crescido em São Paulo. Não raro, acompanhamos reportagens na televisão mostrando como as pessoas têm se deslocado pela cidade de bike e como funciona a rede de bicicletas compartilhadas que existe para atender a esse público. Pois é, só que a realidade no Tatuapé não é essa.

Por aqui, a cultura de usar bicicleta em deslocamentos diários – como para ir ao trabalho, à faculdade ou mesmo a um restaurante – parece que ainda não pegou. E os motivos podem ser diversos. Um deles é cultural, ou seja, os moradores ainda não estão acostumados a usar esse tipo de transporte e preferem o carro (haja vista o trânsito infernal do bairro em alguns horários).

Mas a infraestrutura oferecida aos ciclistas também pesa. É só pensar: quando sai de casa de carro, a pessoa quer encontrar pistas em boas condições, sinalização e um lugar seguro para estacionar. Por que de bicicleta seria diferente?

Mauro Calliari, mestre em urbanismo e autor do livro “Espaço Público e Urbanidade em São Paulo”, diz que a infraestrutura e a cultura do uso de bicicleta andam juntos. “Ao oferecer uma ciclovia, você estimula a iniciativa das pessoas de pegarem a bike”. E o contrário também acontece, ou seja, se há demanda, o poder público tende a olhar para aquele lugar.

Para Mauro Calliari, a cidade precisa oferecer estrutura para que as pessoas usem a bike

No Tatuapé, a infraestrutura para quem anda de bicicleta ainda é incipiente. Existe a ciclovia da Radial Leste, que vai do Metrô Tatuapé ao Metrô Itaquera, a ciclofaixa da Abel Ferrreira, que passa em frente ao shopping Anália Franco e chega até o Ceret, além de uma ciclofaixa na região do Shopping Metrô Tatuapé.

O empresário Fábio Petrillo, 40 anos, proprietário da loja Bike Runners, usa a bicicleta no dia a dia e critica duramente a estrutura do bairro para quem escolhe se deslocar usando esse modal. “A Zona Leste está ficando pra trás nesta questão. Quem vai pra Zona Sul, por exemplo, enxerga outra realidade”.

Ele organiza passeios de bicicleta que chegam a reunir mais de 50 pessoas e diz que muitas vezes eles deixam de ir a alguns lugares por causa da falta de estrutura para os ciclistas. “É fundamental a cidade oferecer um suporte para que as pessoas usem mais a bicicleta”, comenta.

Fábio Petrillo, da Bike Runners. Foto: Divulgação

Fábio diz que a ciclovia da Radial Leste tem problemas de manutenção, ondulação na pista, buracos e segurança, e que a ciclofaixa da Abel Ferreira funciona bem para passeios, mas para quem quer usar a bike como um meio de transporte, seria importante que ela fizesse conexão com a ciclovia da Radial Leste.

E as bicicletas compartilhadas?

Até 2017, o Tatuapé tinha algumas estações de bicicletas compartilhadas do Bike Sampa, um programa patrocinado Pelo Itaú. A Tembici, que opera essas bicicletas, disse, em nota, que “depois de estudar as formas de ocupação da cidade e considerando mapas de concentração de transporte, empregos e serviços públicos, definiu uma área contínua para 260 estações do sistema em locais mais estratégicos para atender melhor as regiões com maior adensamento”. E o Tatuapé não está entre elas.

Mapa mostra a área de atuação da Yellow. Foto: Reprodução.

A Yellow, que opera as bicicletas compartilhadas que podem ser deixadas em qualquer lugar, sem uma estação fixa, entrou em São Paulo com uma operação que abrangia toda a cidade, mas logo restringiu sua área de atuação para bairros da Zona Sul e Oeste. Quem quiser usar uma das bicicletas amarelinhas e deixá-la no Tatuapé (ou em qualquer outro bairro fora da área de atuação da empresa) tem que pagar uma taxa de R$ 30.

Onde estacionar a bike?

Um ponto importante para que as pessoas usem mais a bike é onde estacioná-la. Afinal, ninguém quer ficar amarrando bicicleta no poste. No bairro, quase não existem estabelecimentos com bicicletário para os frequentadores. Vejam uma lista do que encontramos por aí:

  • Paraciclos: Estas estruturas amarelas são feitas para estacionar a bicicleta, que fica presa com cadeado. Encontramos estes paraciclos na Avenida Celso Garcia, em frente à padaria Vera Cruz; na Praça Silvio Romero e na Droga Raia da Rua Emília Marengo.
Paraciclo em frente à Padaria Vera Cruz, na Avenida Celso Garcia.
  • Ceret: Logo na entrada do Ceret há dois bicicletários para que as pessoas coloquem suas bikes presas com cadeados. Lembrando que é proibido andar de bicicleta dentro do parque.
Bicicletário do Ceret. Foto: Maisa Infante
  • Shopping Anália Franco: O shopping possui em bicicletário coberto com 30 vagas. Há no local bomba para encher pneu e armários para guardar acessórios.
Bicicletário do Shopping Anália Franco. Foto: Divulgação
  • Power Center Regente Feijó: Há vagas para bicicleta logo na entrada do centro de compras. Elas ficam fora do estacionamento coberto, no recuo da calçada.
Bicicletário no Power Center Regente Feijó. Foto: Maisa Infante

Será que a tendência é pra cidade toda?

Fiz exatamente essa pergunta para o Mauro Calliari. E ele disse que sim.

“Bicicleta não é tendência ligada à moda. É uma tendência de transporte com bases históricas. Cidades da Europa e dos Estados Unidos privilegiam as bikes há décadas”. Ele cita os exemplos mais conhecidos – Amsterdã e Copenhagen. “Essas cidades privilegiaram a bicicleta, tiveram esse processo interrompido quando veio o carro e depois as bikes voltaram com tudo. Hoje, 30% dos deslocamentos diários desses locais é feito de bicicleta”.

Ciclofaixa em rua do Jardim Anália Franco. Foto: Maisa Infante

Mauro conta que ele mesmo ficou dos 17 aos 56 anos sem andar de bicicleta. E que voltou porque a estrutura oferecida pela cidade melhorou e também porque fez um cálculo que mostrou valer a pena incluir esse modal no dia a dia. “As pessoas tomam decisões racionais, baseadas em cálculos, principalmente no custo e no tempo gasto nos deslocamentos”. As pesquisas mostram, ele diz, que usar a bike chega a ser duas ou três vezes mais rápido do que a pé. “A bicicleta é um ótimo complemento ao transporte de massa, seja ônibus ou metrô. É nesses deslocamentos complementares que São Paulo precisa investir. Onde eu deixo a bicicleta para pegar um ônibus ou metrô? Hoje, isso ainda está muito mal resolvido”.

Os desafios para espalhar essa tendência pela cidade não são poucos. As longas distâncias que São Paulo impõe é um deles. O relevo acidentado e a transposição dos rios (imagine você andando de bicicleta nas pontes que passam sobre as marginais?) e das grandes avenidas, também. “Essas três coisas combinadas são um problema. Mas, hoje, criar uma rede que funcione a partir do que já se tem é muito mais fácil”.

A gente, aqui do Conexão Tatuapé, espera que essa onda chegue ao bairro. Poque precisamos de um respiro, de mais movimento, de veículos mais leves e de mais espaço para as pessoas!

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