Pedro Abarca: a história do historiador

Historiador por aclamação, e não por título, a vida levou Pedro Abarca a ser o narrador oficial da história do Tatuapé. E ele contou um pouco da sua própria vida pra gente!

Falar do Tatuapé sem falar de Pedro Abarca é praticamente impossível. Tanto é que os principais meios de comunicação o procuram quando há uma pauta sobre a região. Assim como acadêmicos, estudantes de jornalismo, alunos do ensino fundamental e todos aqueles que precisam de informações sobre o Tatuapé.

Mas esse caminho não foi planejado. A história começa depois que Pedro Abarca se aposenta. Como ele mesmo diz, “foi o período de libertação da sua vida”. A partir dele, a sua dedicação à literatura, à escrita, e principalmente ao Tatuapé, afloraram.

Hoje, aos 87 anos, Pedro Abarca continua com as suas palestras e a escrever novos livros, sua grande paixão.

“Não procurei por nada disso. Quando escrevi meu primeiro livro, queria apenas falar sobre o Tatuapé. Mas aí veio o segundo, outras histórias e, em 2017, o terceiro trabalho. Nesse, último, por sinal, dou por encerrada as minhas pesquisas sobre o bairro”.

Além do título de historiador por aclamação, Pedro Abarca ainda conquistou um lugar, no ano de 2003, no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Resultado das pesquisas realizadas sobre o Tatuapé.

LEGADO INQUESTIONÁVEL

O legado que Pedro Abarca deixará é indiscutível. Além disso, ele ainda atuou por anos junto a várias entidades locais em prol de um bairro melhor.

“Considero que fiz um bom trabalho. Também participei de ações do bairro do ponto de vista comunitário. Fiz parte do Conselho Comunitário, da Sociedade Amigos do Tatuapé e fui agraciado com o título Paul Harris, sem ser rotariano. Tive o reconhecimento da Associação Comercial de São Paulo – Distrital Tatuapé – e também da Prefeitura. Fico contente ao ver que o que faço serve para abrir os olhos das pessoas e para elas gostarem mais da história.”

No momento, Pedro Abarca trabalha na segunda edição do livro “Linhas Paralelas” (que também foi publicado na Argentina, em espanhol) e na primeira edição do “Guru entre vespas e aranhas”.

A INFÂNCIA

Pedro Abarca nasceu no Brás no ano de 1931. Filho de um comerciante de sacaria de juta para exportação de café, seu pai, em 1939, fechou o negócio para morar na cidade de Tupã, no interior do Estado.

“Meu pai tinha dois irmãos fazendeiros. Um deles queria montar alguma coisa com ele. Mas as coisas não correram como o planejado. Ficamos meses na cidade e nada aconteceu. Meu pai se cansou, pegou as malas e voltou a São Paulo, só que para o bairro do Tatuapé.”

Ele tinha 9 anos e gostou da mudança. O Brás de onde a família havia saído já não era um bairro ideal para a garotada. Passavam muitos carros, carroças e ônibus e as crianças não podiam brincar na rua.

“O Tatuapé era o paraíso. Terrenos à vontade, bichos, insetos, borboletas, muita mata e nunca tinha visto um rio tão bonito como o Tietê. Era um lugar bucólico, cheio de chácaras de frutas, hortaliças e flores, vacarias, criações diversas e sítios. Me recordo da fala de uma senhora que nunca esqueci: ‘o Tatuapé era tão ruim, mas era tão bom’. Quer dizer: era tão primitivo, tão rústico, mas era muito gostoso. A gente brincava na rua, jogava bola, peteca. Mas isso começou a acabar em 1950, quando as indústrias começaram a chegar ao bairro”.

Entre os pontos de diversão e encontro dos moradores, o Cine São Luiz, na Celso Garcia, localizado entre a Rua Tuiuti e a Avenida Salim Farah Maluf, se destacava.

“O Cine São Luiz, de 1931 a 1945, foi o único cinema do bairro. Todo tatuapeense ia lá. Em 1945 surgiu o Cine São Jorge, perto da Rua Antonio de Barros, onde hoje é a Chic Calçados. Depois veio o Cine Casp, da Paróquia do Bom Parto. Era um cineminha pequeno, mas como era perto, na Serra de Japi, em frente à antiga igreja, a garotada passou a ir lá. Em 1953 chegou o Cine Leste, próximo da Rua Tuiuti. Depois vieram: em 1956 o Cine Aladim, na Avenida Celso Garcia; o Cine Pajé, na Azevedo, e o Cine Japi, na Rua Emília Marengo.”

ESTUDOS E TRABALHO

No Tatuapé Pedro Abarca fez o primário na escola Visconde de Congonhas do Campo, mas saiu no último ano, antes de se formar. Ele foi estudar à noite, no Externato São Paulo Brasil.

E foi neste período em que algo inusitado aconteceu. “Lembro-me do meu pai perder todo o dinheiro que tinha. Então minha mãe foi trabalhar fora, pela primeira vez, com quase 40 anos, como tecelã, ofício que aprendeu com suas irmãs. Como eu era o filho do meio, as incumbências da casa couberam a mim. Virei uma dona de casa muito cedo. Com 10 anos eu lavava a louça, fazia comida, arrumava as camas. Fazia tudo. Minha mãe trabalhava e o meu pai saía para negócios. Aí, aos 14 anos, fui trabalhar fora.”

O primeiro emprego foi em uma firma de cartonagem – para a produção de caixas diversas. Depois, ele foi trabalhar na Tinturaria e Estamparia de Tecidos Fernandez, na Rua Tuiuti, que ficava em frente ao Parque do Piqueri – antiga propriedade da família Matarazzo.

“Trabalhando lá, me colocaram no Senai, pois era obrigatório aos garotos. Fiz um ano e meio de Ajustagem Mecânica – para dar término às peças. Parei porque a segunda parte dos estudos era no Brás e não queria me deslocar até lá. Então fiz o ginásio no Colégio Fernão Dias, depois Desenho Mecânico na Getúlio Vargas, e em seguida a Escola Técnica São Paulo. Foi quando dei por encerrado os estudos.”

Depois de trabalhar na área mecânica, como ajustador (de peças), Pedro Abarca conseguiu um trabalho de projetista de máquinas e instalações industriais. Ele se lançou no ramo e por 40 anos trabalhou em grandes empresas. Entre elas está a Coca-Cola, onde fazia os projetos para a instalação das máquinas de produção.

Aos 27 anos, Pedro Abarca se casou com Laura. Desta união nasceram dois filhos: Marcos e Telma.

A ESCRITA

Já próximo de se aposentar, Pedro Abarca resolveu começar a escrever crônicas, artigos e poesias para entregar aos amigos. O material acabou por chamar a atenção da esposa de um deles, que era dona do jornal “A Krítica”, na cidade de Nova Odessa, interior do Estado.

Pedro Abarca com o último livro lançado sobre a História do Tatuapé. Foto: Vanessa de Sousa Fernandes

“Ela me perguntou se eu queria escrever crônicas para o jornal. Então, semanalmente, mandava os textos para publicação. Foram quase dois anos. Depois me aposentei e ao sair da empresa perdi o contato com eles.”

A APOSENTADORIA

Quando parou de trabalhar, Pedro Abarca sentiu o baque e, durante dois meses, teve sérias dificuldades para dormir. “A pessoa que fica 40 anos trabalhando entre quatro paredes, quando se vê livre, não encara aquela liberdade. Ela vê aquilo como um problema”.

Como sofria com a insônia, Pedro Abarca começou a levantar por volta das 3 horas para fazer um chá de camomila, comer alguns biscoitos e escrever.

“De manhã, quando olhava o que havia escrito, parecia que aquilo não tinha sido feito por mim. Ficou um negócio tão engraçado que pensei em fazer um livro. Entrei em contato com algumas editoras e consegui a publicação do “Ruminâncias de um camelo aposentado”, em 1992. Foram 1.200 livros. O pessoal ria muito porque eu pegava um assunto sério e brincava com ele.”

Ao entregar um desses exemplares aos diretores da Revista In, veio o convite para escrever dois artigos: Perfil, com empresários do bairro, e Verso e Reverso, com a opinião de pessoas contra e a favor de um determinado tema polêmico.

AS HISTÓRIAS DO TATUAPÉ

Certo dia, na Editora Rumo, para a qual já havia feito “Ruminâncias” e a cartilha “Contagem Regressiva”, o diretor indagou a Pedro Abarca porque ele não escrevia um livro sobre o Tatuapé, já que ele conhecia tão bem o bairro. Abarca gostou da ideia e reuniu empresários locais para bancar a edição. Neste momento, em 1994, nasceu o livro “Tatuapé, uma história fascinante”.

Mas ele não ficou satisfeito com o trabalho por causa da citação de políticos. Então, em 1997, resolveu fazer um outro livro, “Tatuapé ontem e hoje”, retirando todos os políticos.

E foi aí que surgiu o convite para aquela que viria a ser a mais duradoura parceria da sua vida: o jornal Gazeta do Tatuapé.

“Eu fui perguntar ao já falecido Braz Jaime Romano, dono da Gazeta do Tatuapé, se ele queria fazer uma publicidade do meu livro. Ele olhou e perguntou: “por que a gente não coloca esse material no jornal?’”

“Antes quem fazia o anuário da Gazeta do Tatuapé era o Vanderlei dos Santos, mas ele se mudou para a cidade de Franca e não pode fazer mais este trabalho. Aceitei o convite e fiz o primeiro anuário com os temas do livro. O seu Jaime gostou da ideia e pediu pra que eu continuasse. Foram 12 edições anuais. Brinco dizendo que casei com a Laura e com o Tatuapé.”

Nestas pesquisas, Pedro Abarca acabou descobrindo que o Tatuapé é mais velho do que a cidade de São Paulo. “Tenho provas documentais e discuto com qualquer pessoa sobre isso. O Tatuapé começou em 1540, portanto 14 anos antes de 1554, fundação da cidade”.

ANOS DE PESQUISAS

Pedro Abarca conheceu o Tatuapé a partir de 1939. Portanto, viveu junto às chácaras e viu o bairro crescer. Além da experiência de vida, as pesquisas realizadas para os anuários do jornal Gazeta do Tatuapé foram essenciais para a idealização dos livros.

Os livros lançados por Pedro Abarca depois da aposentadoria. Foto: Divulgação

“Para o último livro que fiz, a ‘História do Tatuapé’, foram 23 anos de muita pesquisa, mais um ano e meio de elaboração. Ele está dividido em cinco períodos que englobam de 1531 a 2016″.

É inegável a importância da pesquisa de Pedro Abarca para o resgate, manutenção e disseminação da história do Tatuapé. Conhecer a história do Brasil e do mundo é muito importante. Mas conhecer a história do lugar onde se vive, é fundamental.

A seguir, o resultado de mais de 40 anos dedicados à escrita:

  • Ruminâncias de um camelo aposentado – romance – 1992
  • Contagem regressiva – Reflexões sobre a violência – 1993
  • Tatuapé – Uma história fascinante – 1994
  • Paróquia Nossa Senhora do Bom Parto – 1995
  • Tatuapé – Ontem e Hoje – 1997
  • Aldeia dos meninos azuis – livro infantil – 1999
  • Eu sou feliz e sei! – livro de autoajuda – 2000
  • Tatuapé – A história de um povo – 2003 – livro para o Shopping Metrô Tatuapé
  • Linhas Paralelas – romance – 2004
  • Líneas Paralelas – traduzido para o espanhol e publicado na Argentina – 2012
  • Así Hablaba Pitácrates – romance em idioma espanhol e publicado na Argentina – 2013
  • Felicidade já! – livro de autoajuda – 2015
  • Ruminâncias de um camelo aposentado – romance – 2ª edição – 2015
  • História do Tatuapé – 2017
  • Cronicando o cotidiano – 2018

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