Casa Regente Feijó: patrimônio histórico tem visitas guiadas no Tatuapé

As vagas já estão esgotadas para este primeiro semestre mas, ainda assim, vale a pena conhecer a história deste casarão e se preparar para as visitas do segundo semestre.

Bem no meio do Jardim Anália Franco, entre prédios de luxo, shopping, universidade e avenidas movimentadas está a bucólica Casa do Regente Feijó. O imóvel tira o fôlego de quem o visita porque leva a uma viagem no tempo. E há muita história lá dentro para ser contada.

Foto: Fábio Hirata

Desde o final de 2017, este patrimônio da cidade de São Paulo, tombado pelo Compresp e Condephaat nas décadas de 1980 e 1990, pode ser visitado. O projeto de visitas guiadas é encabeçado pelo arquiteto Anselmo Oliveira Jr e tem feito tanto sucesso que as vagas para as visitas no primeiro semestre deste ano já estão esgotadas.

Vamos à história

A casa fica perto do Shopping Anália Franco

A região onde fica a casa do Regente era, no século 16, conhecida como Capão Grande. Era um matão que foi sendo ocupado e desbravado. A jornalista Cremilda Medina conta no livro Atravessagem que conseguiu remontar a história daquele pedaço de terra a 1698, quando o casal Pedro Aguirra e Catharina Lemos, herdeiros do desbravador João Ramalho, se instalaram no sítio Capão do Tatuapé Acima.

“Começam então os desobramentos e a especulação rapidamente inflaciona as transações. Três capões pequenos e o Capão Grande de Mato Grosso são vendidos por 25 mil réis, em 1800, por sinal a um vigário, André Baruel, que quebra a cadeia de descendentes de João Ramalho. Quando Feijó comprou as terras já foi de um capitão. Como o regente andava desgostoso com os reveses da carreira política, mudou o nome de seu retiro verde para Sítio do Paraíso. Mas, em 1840, lá andaria apertado com as finanças particulares ou simplesmente quis especular, vendeu a Francisco Leandart grande parte do sítio por 4 mil réis, fiados em 4 anos. Como o comprador não conseguiu pagar, o sítio voltou à herdeira de Feijó, que não resistiu à tentação imobiliária e o vendeu dois anos após a morte do regente por 8 mil réis”.

Esta herdeira era D. Margarida, filha de D. Manuela Francisca de Jesus Feijó, irmã do regente.

Feijó nasceu em 1784 e teve uma importante carreira política no Brasil. Foi vereador, deputado, senador, ministro da Justiça e Regente do Império entre 1835 e 1837. Acredita-se que ele usava o sítio para descanso e que lá também rezava algumas missas e batizava crianças, já que era padre. Cremilda diz em sua reportagem que “ao sair da regência em 1837, volta a São Paulo e busca a serenidade no retiro do Sítio Capão Grande”.

Quando Anália Franco entra na história

O Padre Regente Feijó talvez tenha sido o proprietário mais ilustre da casa, afinal foi presidente do Brasil por dois anos. Mas quem fez uma grande história ali foi a educadora Anália Franco. Em 1911, a Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, fundada em 1901 por ela, comprou a propriedade do Coronel Serafim Leme da Silva. Focada em oferecer educação e proteção a crianças carentes e mães desamparadas, a instituição fundou exatamente onde é o casarão a “Colônia Regeneradora Dr. Romualdo Seixas”.

foto: Ale Rodrigues

A ideia era ter um projeto autosuficiente com cursos e hortas que formassem um ciclo de abastecimento do próprio local e profissionalização das pessoas que estivessem ali. No início, a colônia abrigava as “mulheres arrependidas” (abandonadas pelo marido, mães solteiras, viúvas e prostitutas). Com a diversificação das atividades, homens e outras faixas etárias começaram a ser aceitas. Houve momentos em que chegou-se a ter 400 abrigados no local. Há registros de cursos de tipografia, carpintaria, agricultura e costura na colônia.

Ala da Casa do Regente, que já foi estábulo, senzala e abrigo de crianças e mulheres carentes. Foto: Maisa Infante

Uma curiosidade sobre a qual é possível refletir em uma visita ao casarão é que os dois anexos da casa tiveram usos muito diversos ao longo da história. Na época de Anália Franco, eles se transformaram em dormitórios para os abrigados. Já na época do Regente Feijó, acredita-se que eram utilizados como abrigo para animais e senzala. Segundo a jornalista Cremilda Medina, quando o imóvel foi vendido pela herdeira de Feijó, havia a seguinte descrição do local: “casa decorada com sotão, senzala, casa para fábrica de chá, terras para plantação e postos”.

Até o começo da década de 1930, a colônia funcionou naquele espaço. Houve muito sofrimento com a gripe espanhola, que atingiu os moradores do local (em determinado momento houve 142 doentes, sendo que cinco morreram), inclusive a própria Anália Franco, que morreu em 1918.

Vista da Casa do Regente com os prédios do Anália Franco ao fundo. Foto: Maisa Infante

Quando foi inaugurado o prédio onde hoje fica a Unicsul, na Avenida Regente Feijó, as atividades na antiga casa do Regente foram encerradas. A Associação funcionou no novo prédio até a década de 1990, quando foi transferida para o interior de São Paulo.

Hoje, a Casa do Regente é uma propriedade particular.

O Restauro

Nos anos 2000, a casa passou por um trabalho de restauro feito pelo escritório do arquiteto Samuel Kruchin. Considerada um remanescente da arquitetura bandeirista, a construção passou por muitas reformas ao longo do tempo e perdeu muitas características originais, como o telhado de 4 águas que é típico dessas construções.

Porém, quem visita a casa consegue ter contato com elementos arquitetônicos que mostram partes da construção original recuperada – como paredes de taipa de pilão e estruturas de barro-, além de detalhes como camadas de tinta e pinturas decorativas. Vale a pena ficar atento!

Essa imagem mostra as diversas camadas de tinta que já cobriram a parede da Casa do Regente. Foto: Maisa Infante

O passeio

As visitas guiadas, que hoje são a única forma de conhecer esse espaço, já que ele não é aberto à visitação, acontecem por iniciativa do arquiteto Anselmo Oliveira Jr., que tem escritório no Tatuapé e acredita que a transformação acontece por meio da interação e do contato das pessoas com aquilo que está próximo delas. Foi com essa ideia que ele criou o projeto Arquitetando, do qual essas visitas fazem parte. “Essa casa está nas raízes do bairro e guarda muita cultura”, diz.

Anselmo conta que essa história começou durante um trabalho voluntário com os alunos do curso de arquitetura da Unicsul para falar justamente sobre um urbanismo que aproxima as pessoas, não que afasta. Ele percebeu que os próprios alunos não conheciam a casa, que faz fundo com a universidade, e começou a organizar os passeios.

O arquiteto Anselmo Oliveira é o criador do projeto de visitas guiadas à Casa do Regente Feijó.

O projeto cresceu, se espalhou no boca a boca e ele conseguiu uma autorização com os proprietários do imóvel para organizar a visita guiada uma vez por mês. Ela tem duração de uma hora e, até agora, cerca de 360 pessoas puderam conhecer a Casa do Regente de perto. “Esse lugar é o nosso cartão postal e é tão importante para São Paulo e o Brasil que merece estar dentro dos roteiros turísticos da cidade”.

Quem quiser visitar precisa mandar um e-mail para arquitetandosp@gmail.com. Por esse canal, os organizadores enviam todas as informações aos interessados. Mas, lembrando, não há mais vagas para o primeiro semestre.

Deixe uma resposta